segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O dilema da criação de filhos no Brasil: a ética compensa?

Dilema

Pais temem ensinar virtudes às crianças e torná-las presas fáceis em um país onde o dever e a verdade parecem vencidos pela mania de levar vantagem.

A dentista Márcia Costa abomina infrações às leis de trânsito. Em especial, a prática adotada por muitos pais de parar o carro em fila dupla, interrompendo o fluxo de veículos, para deixar os filhos na porta da escola. Ela prefere estacionar seu carro mais longe e fazer os adolescentes caminharem até lá. Não satisfeita, reprova publicamente os motoristas que alimentam a irregularidade. Os filhos protestam: "Que mico!", diz Beatriz, de 15 anos. "Mãe, assim é você quem acaba sendo a chata da história", afirma Lucca, de 12. A guerra à fila dupla envolveu até o marido de Márcia, Marcelo, que certo dia colocou a convicção da mulher à prova: "Você quer estar certa ou quer ser feliz?" É um velho dilema. Filósofos gregos já se faziam a pergunta há mais de vinte séculos: uns defendiam que fazer o que é correto, o que deve ser feito, é o caminho para a felicidade; outros argumentavam que tal conciliação é impossível.

Ética e felicidade na Grécia Antiga​​

Pródico de Ceos (século V a.C.), um sofista, acreditava que ética e felicidade eram excludentes. Ele citava o exemplo da escolha de Hércules. Segundo a mitologia, o herói se deparara com duas deusas, a felicidade e a virtude, que o convidavam a viver duas vias distintas. Hércules optava pela virtude em detrimento dos prazeres passageiros. Já Aristóteles (século IV a.C.) pensava que ética e felicidade eram complementares: a primeira como o meio, a outra, como fim
O dilema vive no Brasil hoje. E se acirrou há poucas semanas com a publicação do artigo do economista Gustavo Ioschpe, colunista de VEJA, intitulado "Devo educar meus filhos para serem éticos?" Ioschpe revelou a apreensão de criar filhos em uma nação às voltas com problemas éticos de estaturas variadas — da ausência de pontualidade para compromissos à ausência de honestidade para governar. A certa altura, ele apresentou assim seu dilema: "Será que o melhor que poderia fazer para preparar meus filhos para viver no Brasil seria não aprisioná-los na cela da consciência, do diálogo consigo mesmos, da preocupação com a integridade?" Foi a senha para que milhares de leitores se manifestassem, compartilhando apreensão idêntica.
Mais de 30.000 pessoas recomendaram o texto, reproduzido em VEJA.com, utilizando recurso do Facebook; centenas deixaram comentários ao artigo e espalharam as ideias contidas nele pela internet. Muitos aproveitaram a ocasião para contar suas histórias, seus dilemas. É o caso de Márcia Costa e dos demais pais ouvidos nesta reportagem. "Temos que criar nossos filhos para serem do bem ou para se darem bem? A preocupação é o quão inocente nossos filhos vão ser se forem educados para serem do bem", diz a tradutora Samira Regina Favaro Gris. A médica Denise Zeoti acrescenta: "A ideia de passar valores para minha filha e torná-la uma presa fácil me assusta. Quero que ela seja uma pessoa ética, correta, mas não quero que ela seja passada para trás." Continue a ler a reportagem

Leitores falam sobre o dilema ético na criação de filhos

1 de 4

Sandra Capaldi Arruda, engenheira florestal, Piracicaba (SP)

Sandra com a filha Laura e o marido, Marco Aurélio
"Havia algumas regras na escola da minha filha. Uma delas: todos os alunos têm que usar uniformes. Outra: na aula de educação física, as meninas devem prender o cabelo. Um dia, fui à escola e percebi que nenhum estudante usava o uniforme. Na aula de educação física, todas as meninas tinham os cabelos soltos. Comecei a me fazer perguntas: 'Se é uma norma, por que ninguém cobra seu cumprimento?' Mais uma: 'Será que estou sendo muito exigente com minha filha?' Apesar das dúvidas, continuo com a certeza de que as regras são importantes. Se você não exige das crianças respeito às normas, como querer que elas façam isso quando forem adultas?"

Do ponto de vista filosófico, ética é um conjunto de valores e princípios que define os limites de ação de cada ser humano. "Esse conjunto nos orienta em três questões fundamentais, intrinsicamente ligadas à nossa liberdade individual: Quero? Posso? Devo? Minha resposta depende dos princípios éticos que adoto", diz o filósofo Mario Sergio Cortella. É uma questão simples de compreender quando aplicada à prática. De maneira geral, queremos muitas coisas: em alguns casos, podemos até obtê-las (ou realizá-las), mas, em outros, não devemos alcançá-las. Pode ser o caso de parar o carro em fila dupla na porta da escola dos filhos; pode ser o caso de desviar dinheiro dos cofres públicos. Pessoas eticamente saudáveis, prossegue a filosofia, são aquelas que podem, mas não fazem o que é errado.

Cortella: felicidade com ética
Quando se trata de ética, portanto, há sempre um choque entre princípios e ações individuais e coletivos. Seria mais correto, aliás, falar em éticas — no plural. Cortella tem um inusitado exemplo para explicar como elas se chocam, e como, no convívio social, a ética se impõe aos interesses individuais. É a análise do caso de uma casca de banana atirada ao chão. "Quem a atirou ali propositalmente seguiu a ética tola, egoísta. Quem viu a casca, mas não a retirou, agiu segundo a ética da omissão. Finalmente, quem jogou a casca no lixo seguiu a ética da vida coletiva."
Criar filhos no Brasil demanda preocupação extra por causa dos tipos de ética que se chocam no ambiente público. Afinal, como convencer os filhos de que é preciso falar sempre a verdade quando um deputado federal preso por desvio de dinheiro público é absolvido por seu pares, que asseguram a ele o mandato de representante do povo? "Uma sociedade em que os poderosos não são presos, em que nem todos são iguais perante a lei, vive uma contradição ética. Em público você quer parecer igualitário, mas por baixo dos panos, para seus parentes, você usa a ética da desigualdade", diz o antropólogo Roberto Da Matta (leia entrevista abaixo).
A ética — a da igualdade — pode ser o caminho mais longo e árduo para os brasileiros, em geral, e para os pais, em particular, rumo à felicidade. Mas é, segundo filósofo Cortella, certamente o único. "Não é possível ser feliz quando não se tem paz de consciência. Quem age de acordo com a conveniência do momento, prega uma ideia e aplica outra, não terá essa paz. Esse sofre de esquizofrenia ética", diz. "Agir de acordo com o que consideramos correto é o que traz paz de espírito." No artigo que levantou a discussão, Gustavo Ioschpe, logo após apresentar seu dilema, concluiu que deixar de transmistir a seus filhos um legado ético era uma decisão insustentável. O norte é mesmo a ética.
 

"O Brasil odeia a igualdade, o mérito, o mercado"

Roberto Da Matta, antropólogo

O cotidiano brasileiro é pautado pela ética? Depende de um fator: de que ética estamos falando. No Brasil, estamos acostumados com uma ética da desigualdade, que faz a gente ter uma enorme dificuldade em aceitar a igualdade.
Trata-se, então, de uma questão cultural? É uma questão cultural que tem a ver com uma cultura política profundamente desigual. Esta tem raízes no regime da escravidão e da monarquia, fundados na desigualdade, e foi transferida para a República, cujo pilar é a igualdade, sem que houvesse a necessária discussão e sem que o conceito de igualdade fosse internalizada nos cidadãos. As questões são sempre discutidas a posteriori, quando acontece alguma coisa alarmante, como um caso de corrupção em que um ministro roubou muito. Aí, paramos para discutir.
Qual a relação entre igualdade e ética? Temos um ditado revelador no Brasil: os incomodados que se mudem. Assim, se você chegar a um restaurante com suas amigas, falando alto e dando risada, e isso incomodar a mim, eu é que sou obrigado a me retirar. A desigualdade prevalece sobre a igualdade. Dentro da nossa cultura, tudo isso é sintomático: a maneira de furar fila, não esperar a vez do outro, não dar vez para pessoas idosas e assim por diante. Tudo isso precisaria ser discutido para criar uma ética de igualdade.
Em que medida essa ética da desigualdade é responsável, por exemplo, pela corrupção nos governos? Muitas vezes, achamos que uma mudança no estado acarretaria uma mudança automática na sociedade. É justamente o contrário. Quem assume os cargos públicos são nossos iguais, companheiros, parentes. São como nós as pessoas que reproduzem no estado esse padrão duplo de usar de vez em quando uma ética igualitária e em outros momentos uma ética baseada em relações, nos contatos. O Brasil não gosta de ser igual, odeia a igualdade, o mérito, o mercado. Prova disso é que, antigamente, o trabalho era considerado marginal e, por isso, os superiores não trabalhavam. Carregamos uma tradição aristocrática em lugar de uma herança moderna, baseada na ética da modernidade, que vem de uma orientação cosmológica diferente, interessada em melhorar esse mundo.
Essa noção de igualdade deve ser ensinada em casa? Sim, é preciso ser coerente em casa e na rua. Porém, a própria estrutura familiar é muito desigual. Os meninos podem chegar às 6h da manhã de uma festa, enquanto as meninas têm que estar em casa à meia-noite. Irmãos mais velhos ainda têm mais direitos do que os mais jovens. Em resumo, a mudança necessária tem que começar pela família.

Fonte: Revita VEJA, 06/10/2014

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Brasil fica em segundo pior lugar em relação à consideração por professores.

Enquanto brasileiros comparam o trabalho dos professores ao de bibliotecários, os chineses comparam pedagogos a médicos.

O Brasil ficou em segundo pior lugar de um ranking que a avalia a forma como a população enxerga a profissão de professor. Os pesquisadores fizeram perguntas como: “Você encorajaria seu filho para se tornar professor?”, “Você acredita que a remuneração dos professores é justa?” e “Quanto você acredita que os alunos respeitam o professor?”. As respostas dos brasileiros deixaram o País acima apenas de Israel, num ranking com 21 países.
O lugar onde professores têm o melhor status é a China.  O índice mostra que China, Coreia do Sul, Turquia, Egito e Grécia respeitam mais os seus professores do que qualquer país europeu ou anglo-saxão.
Resultados no Brasil
Os brasileiros são mais propensos a dizer que um professor teve influência em suas vidas do que moradores de outros países pesquisados. No País, os cidadãos demonstram mais confiança no professor do que no sistema de ensino.
Menos de 20% das pessoas possivelmente ou seguramente encorajariam os seus filhos a se tornarem professores. Em contrapartida, mais de 45% dos pesquisados possivelmente ou seguramente não encorajariam seus filhos a se tornarem professores. Na China, enquanto 50% dos pais encorajariam os seus filhos, apenas 8% fariam o mesmo em Israel.
Os brasileiros apoiam salários mais altos do que os atuais para os educadores. A grande maioria (88%) acredita que os docentes deveriam ser remunerados de acordo com o desempenho dos seus alunos. Enquanto isso, Japão, França e EUA julgam que a remuneração dos seus professores é entre 6% e 55% mais alta do que o considerado justo.
Quando questionados se os alunos respeitam os pedagogos, aproximadamente 65% dos brasileiros disseram que não.
Enquanto brasileiros comparam o trabalho dos professores ao de bibliotecários, os chineses comparam pedagogos a médicos.

 A pesquisa
O Índice Global de Status de Professores foi criado pelo professor de economia da Universidade de Sussex, Peter Dolton, e pelo professor associado do Departamento de Estatística e Econometria da Universidade de Málaga, dr Oscar Marcenaro-Gutierrez.
O estudo se baseia em uma aprofundada pesquisa de opinião pública feita pela Populus em 21 países. Os países foram classificados por meio de um índice com base nesses resultados. Em cada um dos países a seguir, foram entrevistadas mil pessoas:
Confira o Ranking:
1. China
2. Grécia
3. Turquia
4. Coreia do Sul
5. Nova Zelândia
6. Egito
7. Singapura
8. Países Baixos
9. Estados Unidos
10. Reino Unido
11. França
12. Espanha
13. Finlândia
14. Portugal
15. Suíça
16. Alemanha Japão
17. Itália
18. Republica Tcheca
19. Brasil
20. Israel

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Brasil tem 370 mil usuários regulares de crack em capitais.























Jovem consome crack no centro de Manaus
O crack e outras drogas a base de cocaína fumada são consumidos regularmente por 370.000 pessoas nas capitais do país e no Distrito Federal, sendo que a maior parte dos usuários se concentra na região Nordeste. E quase oito em cada dez usuários desejam um tratamento para o vício. Os números foram relevados por um grande estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgado nesta quinta-feira pelos ministérios da Justiça e da Saúde.
Apesar de 78,9% dos usuários de crack terem manifestado vontade de passar por um tratamento, a pesquisa mostrou que o acesso aos serviços atualmente disponíveis é baixo. Nos trinta dias anteriores à pesquisa, postos e centros de saúde foram procurados por apenas 20% dos usuários. De acordo com os pesquisadores da Fiocruz, esse fato reforça a necessidade de ampliação desses serviços e de “pontes”, como agentes de saúde e consultórios de rua, entre os locais onde ocorre o uso da droga e os pontos de atendimento.
Nas capitais, os usuários do crack representam 35% do total de consumidores de drogas ilícitas, com exceção da maconha. Apesar de comumente se pensar que a maior parte deles habita a região Sudeste do país, a pesquisa mostrou que 40% deles vivem na região Nordeste. De acordo com informações da Agência Brasil, para o secretário nacional de Políticas sobre Drogas do Ministério da Justiça, Vitore Maximiano, isso ocorre por causa do Índice de Desenvolvimento Humano mais baixo na região.

Perfil – As pessoas que fazem uso de crack no Brasil são principalmente homens (78,7%), não brancos (80%), com idade média de 30 anos e baixa escolaridade. Apenas 20% cursaram ou concluíram o ensino médio e 0,3%, o ensino superior. Crianças e adolescentes representam 14% dos usuários das capitais.
A renda da maior parte dos usuários (65%) vem de trabalhos esporádicos ou autônomos. Em comparação à população geral, a porcentagem de pessoas que utilizam o sexo como forma de obter dinheiro ou drogas é elevada: 7,5% contra 1%.
Cerca de metade dos entrevistados relevou já ter sido presa, sendo 41,6% no último ano. O principal motivo apontado foi o uso e porte de drogas, com 13,9%.


Divisão por sexo – O tempo médio de uso de crack nas capitais é de quase oito anos (91 meses), com estimativa de dezesseis pedras da droga por dia. Já nos demais municípios, esse período corresponde a aproximadamente 5 anos (59 meses), com consumo de onze pedras. Enquanto os homens tendem a consumir a droga por mais tempo (média de 83,9 meses, contra 72,8 das mulheres), elas consomem 21 pedras por dia e os homens, treze.
Cerca de 10% das mulheres usuárias de crack relataram estar grávidas no momento da pesquisa, e mais da metade disse já ter engravidado depois de começar a usar a droga. Além disso, 44,5% das entrevistadas já sofreram violência sexual. Nos homens, esse número é de 7%.
Levantamento – O estudo quantitativo, denominado Estimativa do Número de Usuários de Crack e/ou Similares nas Capitais do País, foi realizado com informações de 25.000 pessoas, ouvidas entre março e dezembro de 2012.
Junto com essa pesquisa, foi divulgado também nesta quinta-feira o Perfil dos Usuários de Crack e/ou Similares no Brasil, realizado com 7.381 usuários de crack de 112 municípios de portes variados, entrevistados novembro de 2011 e junho de 2013.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Mães autoritárias podem criar filhas com distúrbios alimentares.

Estudo mostra que mães autoritárias podem criar filhas com habilidades sociais limitadas e que sofrem de distúrbios alimentaresEstudo mostra que mães autoritárias podem criar filhas com habilidades sociais limitadas e que sofrem de distúrbios alimentares

Um estudo recente mostrou que mães autoritárias e dominadoras podem criar filhas com habilidades sociais limitadas e que sofrem de distúrbios alimentares. A pesquisa foi realizada pela Universidade da Geórgia, nos Estados Unidos, e publicada online em setembro de 2013 no "Communication Monographs". 
De acordo com o estudo, o relacionamento com a mãe está entre os principais fatores que definem o desenvolvimento da filha em relação a habilidades sociais. A interação com a mãe tem um papel mais forte do que a dinâmica familiar de forma geral.
Entre as famílias que participaram do estudo, ficou claro que, nos casos de mães dominadoras ou que faziam críticas desmedidas, a filha tendia a ter problemas para se relacionar.
Essa falta de habilidades sociais está associada a uma probabilidade maior de apresentar distúrbios alimentares, insatisfação com o próprio corpo, exagero na prática de exercícios com peso e, de forma geral, falta de autoestima.

Para realizar o estudo, pesquisadores levantaram informações sobre 286 famílias compostas por mãe, uma filha adulta (idade média de 21 anos) e um filho adulto.
Todos os filhos analisaram como era seu relacionamento com cada membro da família e somente as filhas mulheres fizeram uma autoavaliação e foram avaliadas pelas respectivas mães em relação à capacidade de estabelecer laços saudáveis com outras pessoas.
As filhas também se autoavaliaram em quesitos como autoestima, depressão, solidão, percepção do próprio corpo, dieta e preocupação com a alimentação. O resultado do estudo provou que relacionamentos tumultuados por mães dominadoras podem prejudicar o futuro das filhas.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Discurso Indireto: Avaliações externas x melhoria da Educação

Discurso Indireto: Avaliações externas x melhoria da Educação: A proximidade da Prova Brasil, aplicada entre os dias 7 e 18 de novembro em escolas de todo o país, me traz de volta a um tema já tratado n...

Avaliações externas x melhoria da Educação


A proximidade da Prova Brasil, aplicada entre os dias 7 e 18 de novembro em escolas de todo o país, me traz de volta a um tema já tratado nesta coluna, em Avaliação Não É Ameaça (agosto de 2008). O problema persiste e a advertência continua válida. Exames que devem orientar nossa Educação podem acabar contribuindo para glorificar algumas escolas e estigmatizar muitas outras, o que é um desserviço. Mas essa questão complexa não recomenda reações impensadas, como combater as avaliações. 

Exames gerais e estatísticas educacionais são dever de Estado e a política que estabeleceu isso é uma conquista das últimas décadas. Esse sistema de monitoramento da Educação Básica é essencial, mesmo resultando em manchetes que nos constrangem ao mostrar alunos chegando ainda não alfabetizados ao 6º ano ou ao 9º com a formação esperada no 5º. Pior seria, no entanto, não tomar conhecimento disso. Afinal, sem diagnóstico, não há tratamento. Em vez de punir a defasagem, é importante cuidar dela, como se faz em países onde avaliações periódicas são a rotina que orienta planos de metas revistos anualmente. De nada adianta lamentar os maus resultados sem buscar melhorá-los ou reduzir a formação dos estudantes à preparação para exames nacionais. É preciso refletir sobre como fazer melhor uso dos indicadores educacionais. Será que adestrar os alunos para provas, por mais importantes que elas sejam, pode constituir a razão de ser de uma escola? O que fazer para que as defasagens diagnosticadas orientem de fato a melhoria do ensino? 

Sem essa reflexão, corre-se o risco de distorcer o sentido das avaliações externas e agravar os problemas existentes. Por exemplo, quando se observa apenas o ranking, escolas que, por princípio, admitem sem restrições seus alunos ficam atrás de outras que selecionam as crianças na matrícula para não comprometer suas médias. Do mesmo modo, ao comparar o desempenho de escolas de clientela abastada com o daquelas em regiões mais pobres sem levar em conta os dois contextos, corre-se o risco de esquecer que estas, para suprirem suas carências, precisariam estar ainda mais bem equipadas que as primeiras. 

Entre as unidades bem classificadas há, naturalmente, exemplos de boas práticas educativas. Mas também há boas escolas fora do pelotão da frente, que ficam sujeitas à injustiça do “ranqueamento” e não recebem a devida atenção. Uma distorção desse tipo tem ocorrido em redes públicas que, para melhorar o atendimento, premiam professores de acordo com metas alcançadas. Conversei com a diretora de uma das escolas mais bem conceituadas de sua região. Ela viu despencar a pontuação da instituição depois de receber alunos de outra com pior desempenho que fechara. O problema fez com que a escola perdesse bons professores para um colégio privado e ficasse sem saber como recuperar a motivação para o trabalho. Diante disso, discutimos maneiras de apoiar os novos docentes e recuperar duas centenas de alunos. Outra decisão foi alertar a rede para aperfeiçoar seus critérios, de forma a levar em conta a situação enfrentada em cada unidade, apoiá-la em seus desafios e não puni-la. 

O exemplo mostra que quem lida com situações extremas ou atípicas deve ser respeitado e valorizado, e não criticado, e que o dever do Estado não se resume à avaliação. Começa com ela e, com base em resultados que identifiquem problemas, é preciso estimular uma revisão de metas para resolvê-los. Pode ser ilusório tentar eliminar a competição associada a uma política pública que verifica a qualidade das escolas, mas não podemos ficar reféns dela ou dos desvios decorrentes, sob o risco de deixarmos sem assistência os alunos das unidades escolares que mais precisam de ajuda.


(Luis Carlos de Menezes- Revista Nova Escola/Maio 2013)

quinta-feira, 16 de maio de 2013